Entrevista com Robério Santos

Como forma precedente ao ‘Conversando Fotografia‘, que ocorrerá no próximo dia 19, o Trotamundos bateu um papo com o nosso próximo convidado, Robério Santos.

Robério Santos em uma representação de época, com uma câmera Kapsa (uma espécie de correspondente nacional da Rolleiflex), da década de 40,fotos de Joàozinho Retratista, o óculos e a luminária original do fotógrafo.

1 – Como surgiu esse seu interesse por fotografia?

Sou nascido em Itabaiana, mas fui radicado na cidade de Nossa Senhora Aparecida. Desde criança acompanhei os trabalhos de Quitú, fotógrafo experiente e que morava vizinho à minha casa. Em 1991 ganhei uma Yashica MG2 e fiz minhas primeiras fotos sozinho e que guardo até hoje estas que considero as “primas photos” de minha carreira. Depois disso, nada profissional, continuei fazendo fotos de pessoas, familiares e amigos até 2002 quando em definitivo volto a Itabaiana e começo a fazer fotos do Urbano. Em 2004, começo a fazer parte da revista Perfil, troco equipamento e começo a fazer fotos mais comerciais e profissionais. Amo a fotografia e guardo tudo que produzi até hoje. Em maio lanço uma coletânea de 58 fotos de Itabaiana em Um livro de Luxo.

2 – O que te motivou a investir nesse trabalho de pesquisa e recuperação de acervos da cidade de Itabaiana?

Sempre tive fascínio por fotos antigas. As de minha família as guardo com carinho e, ao chegar a Itabaiana e receber o livro Republica Velha, de Vladimir Souza carvalho, percebi que tinha algumas fotografias antigas de Itabaiana e três nomes surgiam: Miguel Teixeira da Cunha, Percílio Andrade e Joãozinho Retratista. Deste terceiro comecei a pesquisar mais, buscar fotos dele e conhecer a família. Em 2007, comecei a fazer a biografia de Joãozinho e, em 2011, publiquei a vida dele em um Pocket Book, meu segundo livro. Investi pesado em scanners, câmeras, mesa de luz, material para revelação justamente quando tive posse dos 150 negativos em vidro pertencentes a Teixeirinha (primeiro fotografo de Sergipe a abrir uma casa comercial de fotos) e de Joãozinho Retratista. Em 2009, fui subsecretario de cultura, fundador e diretor do departamento artístico da Secretaria de Cultura de Itabaiana e, naquele momento, achava que minhas pesquisas dariam um maior impulso mas, quando tudo estava começando a andar, eu fui demitido. Com isso criei junto a Luiz Antonio Barreto, Antonio Samarone, Jorge carvalho e Luciano Correia o Grupo Itabaiana Grande, para resgatar os acervos perdidos de Itabaiana com as famílias e publicar na rede gratuitamente.

3 – Como você gerencia esse acervo? Quantas peças você tem e como pretende disponibilizar esse acervo para o público?

Eu gerencio em minha casa. Um escritório próprio com estantes, gavetas e materiais foi criado para justamente dar comodidade ao acervo. Guardo-os em backups digitais (em torno de 7 500 fotos) e impressos originais que passam das 40 imagens. Também tem os negativos de vidro (150), algumas câmeras antigas, livros do século XIX sobre fotografia, objetos pessoais dos fotógrafos e manuscritos. Publico uma revista chamada OMNIA, que é de cunho cultural, e sempre que posso coloco algumas fotos antigas e objetos. Já fiz exposições e pretendo fazer outras. Estou planejando para novembro o lançamento das 300 primeiras fotografias de Itabaiana, entre 1872 e 1930, num livro que já está pronto, em parceria com Vladimir Souza Carvalho, chamado ÁLBUM DE ITABAIANA, contendo fotos dos três primeiros fotógrafos, já citados nessa entrevista. O público pode encontrar quase três mil fotos dessas no grupo do Facebook ITABAIANA GRANDE. Entrem!

Carnaval de Rua | Bloco dos Puxa Sacos (década de 30) | Foto: Joãozinho Retratista

4 – É você mesmo quem faz o trabalho de recuperação dos originais? Você faz o trabalho com todos os tipos de suportes (papel, vidro, negativo, positivo, daguerreótipo?)

Sim, sou eu mesmo. Eu e minhas músicas (adoro trabalhar ouvindo musicas). Pego álbuns antigos e digitalizo-os, vidros, 6×6, 8×6, polaróide, negativos 35mm, diapositivos monoculares, daguerreótipo é novidade…mas as chapas de vidro vieram algumas deste fabuloso instrumento de fazer retrato.

5 – Com quem aprendeu essas técnicas? Com quem tem conseguido o material necessário para investir na continuidade da recuperação desses acervos?

Sou autodidata, como dizem, mas aprendi com grandes mestres que escrevem grandes livros, assim não sou autodidata! Eu leio muito, escrevo, pesquiso e leciono fotografa há 5 anos, sempre aperfeiçoando técnicas e experimentando tudo que posso, desde PINHOLE até câmeras 3D, de lambe-lambes até IPHONE 4S. Sou um curioso. Eu invisto muito de recursos próprios, mas alguns me ajudam no patrocínio de livros, ajudam nas viagens que faço. Mas tudo particular, nada de dinheiro público, meu trabalho não chama atenção dos nossos governantes, mas, me divirto bastante com isso tudo. É minha vida.

6 – Você trabalha sozinho ou tem assistentes? Ensinou alguém a fazer este trabalho, também? Há interesse de outras pessoas de Itabaiana nesse seu projeto e nas coisas que você aprendeu?

Trabalho sozinho, sempre. Não deixo encostarem as mãos nos negativos de vidro e nem em algumas fotos, coisa de menino ciumento, mas, disponho de alta tecnologia para esse trabalho, me poupa ter assistentes. Existem curiosos, mas para pôr a mão na massa é quase nulo. Alguns entusiastas, mas fica por aí. Eu disse recentemente que quando é para fazer de graça as coisas são sempre assim. Sonho um dia recuperar o acervo de todo Sergipe, por isso dou suporte para a criação de outros grupos como o de Lagarto, Gararu, Tobias Barreto, Nossa senhora Aparecida e Ribeirópolis.

7 – Nós vimos um processo em que você une duas partes de um negativo de vidro quebrado, refotografa e trata a imagem final de modo a recuperar as fendas. Você faz isso de modo analógico ou usa tecnologias e softwares de edição de imagem como complemento para o trabalho?

Alguns desses negativos estão quebrados em mais de 20 pedaços, queda ou outras coisas, como o calor excessivo. É um trabalho de quebra-cabeça, às vezes falta até pedaços. Monto o quebra-cabeça, escaneio e com um software legal consigo positivar e restaurar. Às vezes dura até uma semana por negativo. Hoje, os 150 originais estão escaneados e guardados em alta definição. Às vezes uso um grafite anterior e limpeza com álcool para facilitar no Photoshop. Um pouco de ambas as técnicas; moderna e arcaica!

Cena do filme O Encanto das Fadas, mostrando o processo de revelação dos negativos em Vidro.

8 – Em que as tecnologias digitais podem ajudar no trabalho do material produzido de forma analógica ou artesanal?

Tendo o negativo e um bom scanner de negativo podemos fazer coisas incríveis. Mas, o equipamento custa caro e poucos são os negativos guardados. A tecnologia ajuda sim e muito, pois com os originais quanto maior é o dpi maior é a imagem. Às vezes, em uma multidão, em um negativo de mais de 100 anos, dá para detectar e isolar a face de todos os presentes, até 50 pessoas, e começar a busca por saber quem são. Um trabalho de anos às vezes por foto. Hoje, eu tenho foto de quase 120 anos que ainda lutamos para saber quem são.

9 – Foi por meio desse processo que você conseguiu recuperar o material de Joãozinho Retratista? Como se deu o processo de lançamento do material dele em livro? Como tem feito para circular essa publicação?

Sim, sim. Não só o de Joãozinho, mas o de Teixeirinha, seu mestre também. O livro de Joãozinho está nas livrarias e, ano passado, eu organizei com mais três amigos a primeira Bienal do Livro em Itabaiana, lançando este livro. Outros estamos preparando. Quem quiser comprar pode ir ate a Escariz ou espere no dia do Conversando que estarei vendendo ao preço de R$ 15,00. A família achou o máximo esse resgate de um grande nome que foi enterrado dia 22 de novembro de 1982. Uma pena, mas se depender de mim seus nomes serão eternos e já são!

10 – Há projetos de novos livros?

Sim: O Livro Branco da Fotografia (19 de maio de 2012), Álbum de Itabaiana (22 de novembro de 2012), O Livro Preto da Fotografia (2013) e Caixa de Originais (2013) – estes de temática na fotografia, além de outros trabalhos.

11 – Você também é fotógrafo, o que essa experiência ajudou no seu processo criativo? Como você vivencia a fotografia enquanto produção de imagens?

Fotografo o HOJE também. As fotos que recolho hoje foram feitas por homens de um passado, se preocupando ou não com o futuro que é o nosso presente. Mas, o que estamos fazendo para as gerações futuras? Nosso presente está sendo bem retratado para eles? Por isso Wacto, Juarez de Góis e eu montamos o Fotoclube Itabaiana com o intuito de juntar esse acervo de hoje em revistas, livros e internet para as gerações futuras. Amo fotografia moderna tanto quanto a antiga. Para mim existe uma palavra: FOTO – seja ela qual for.

Praça Fausto cardoso, século XIX |Foto: Miguel Teixeira da Cunha.

12 – A criação do Fotoclube de Itabaiana é um desdobramento, também, do seu trabalho? Quantas pessoas fazem parte e como é a rotina do grupo?

Hoje temos o Grupo no Facebook chamado Fotoclube Itabaiana, que veio de uma vertente do Fotoclube Sergipe. Hoje contamos ativamente com quase 15 participantes e a tendência é crescer. Na internet temos quase 80, mas atuando mesmo uns 15 integrantes.

13 – Qual o impacto desse seu trabalho no meio social de Itabaiana e no interesse das pessoas pela fotografia?

Depois que comecei a mostrar Itabaiana à cidade, as pessoas começaram a me ajudar. Eu passava e elas me ofereciam uma foto, perguntavam alguma coisa sobre a Itabaiana antiga. Naquele momento, eu percebi que a cidade é muito carente de seu passado, parece que apagaram tudo ou os mais jovens não acreditavam no que seus avós e pais diziam sobra a Itabaiana antiga. Com esse resgate, ficou mais visível e tivemos uma prova visual do quanto Itabaiana foi bela em arquitetura. Infelizmente, as belezas arquitetônicas hoje estão apenas restritas às fotos, até a Igreja Matriz não se salvou da destruição. Tornei-me um historiador sem querer, de um hobbie a uma função necessária para Itabaiana. Tudo o que guardo não é meu e sim do Patrimônio Municipal. Sim, claro, se desse lucro eu teria mais apoio, se desse voto eu teria mais apoio ainda… Mas às vezes me chamam de louco, e não sou?

14 – O que a fotografia te trouxe e quais são os planos em relação a ela para 2012?

A fotografia me permite mostrar ao mundo como eu o vejo. Da mesma forma que espanto os pombos em frente à Igreja, para compor uma cena a La Europa dos Columbos voando na frente, fixo em um retrato o que eu vi naquele momento particular para agora ser parte da imaginação das pessoas. A fotografia antiga é a mesma coisa: quando uma nova foto aparece não há diferença entre uma Itabaiana antiga e uma Itabaiana que eu a vejo; são diferentes ao olhar leigo. Sou um mero curioso, não me considero fotógrafo ou historiador. Aliás, hoje fotógrafo é que faz book de 15 anos e historiador é quem sai dos estrados acadêmicos de uma faculdade de História. Nem sou um nem sou outro, mas o que tiver de fazer até o final de minha vida será feito e deixarei como legado de minha existência. Os planos para 2012? Não tenho somente para ele, tenho para 2013, 2014, 2015… e por aí vai. Comecemos pelo Conversando Fotografia, ok? Abraço!

Blocos os Lobos do Mar (1958) | Foto: Romeu Santos

Esse post foi publicado em Aracaju, Autoria, Cultura Popular, Debates, Estética, Eventos, Fotografia, Lentes, Linguagem, Música, Memórias, Mostras, Reflexão, Religião, Uncategorized. Bookmark o link permanente.

7 respostas para Entrevista com Robério Santos

  1. renata disse:

    Já tô aqui lamentando não estar em Aracaju no dia desse Conversando Fotografia…

  2. Thayane Matos disse:

    Esse é o Cara … uma das melhores escolha que voocs fizeram

  3. Francielly Araújo disse:

    Parabéns pelo belo trabalho!! É pessoas como você que me faz dizer com orgulho que sou sergipana!

  4. Angela Maria Lobo disse:

    Roberio,quanto entusiasmo ao falar de fotografias.Lembrei daqueles meninos que ficavam nas calçadas,colando figurinhas nos álbuns e procurando ardentemente achar aquela mais difícil lembra?te vejo assim,como uma criança grande em busca da foto mais antiga,das surpresas que ainda virão,somente para mostrar a nós itabaianenses a riqueza que temos e que foi descoberta e mostrada por você, através do seu maravilhoso trabalho objetivando mostrar à juventude de hoje ,uma Itabaiana que tem uma linda historia. Parabéns.Espero em Deus surgir alguém que possa te dar o devido valor.

  5. Edilson disse:

    Uma excelente prévia!

  6. Pingback: O projeto Conversando Fotografia recebe Robério Santos « I Ciclo de Fotografia

  7. Paloma Marques disse:

    nossa, que demais! pena que não posso no dia, lamento muito. Queria muito vê-lo falando pessoalmente!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s