Renata Voss discute os tempos da imagem em Brevidade

Renata Voss em debate no Conversando Fotografia | Foto: Alejandro Zambrana

Renata Voss vive em trajetória pelo nordeste. É alagoana, reside e trabalha em Sergipe e faz mestrado na Bahia. É por estes (e outros) trajetos que ela costura as idéias que transforma em projetos fotográficos, como o Brevidade, que está em exposição na Galeria do Sesc Centro, em Aracaju, desde a última quinta-feira, 17 de novembro.

Renata foi uma das nossas primeiras convidadas do Conversando Fotografia. Na terceira edição do projeto, ela dividiu a mesa com Oliver Garcia para discutir os caminhos da fotografia publicitária. Na época, ela havia começado o mestrado estudando a história da publicidade e nos brindou com a descoberta de vários nomes da área no país, a exemplo de Chico Albuquerque, que nós nunca deixaremos de citar.

Uma série de mudanças ocorreram no caminho e o mestrado mudou para o setor de artes. Renata, que sempre se debruçou sobre materiais, memória e processos criativos, encontrou outras formas de ampliar o trabalho. Experimenta bastante, viaja pelo país em busca de oportunidades de aprofundar suas idéias e, no ano passado, foi uma das fotógrafas selecionadas para a concorrida oficina de Joan Fontcuberta, no Fórum Latino Americano de Fotografia, em São Paulo.

Trouxe novas vivências para a rotina como pesquisadora, outras referências para as turmas em que ministra aulas na UFS e mais inquietações para nós que acompanhamos o seu trabalho. Nesta entrevista, ela nos ajuda a pensar em algumas delas e fala sobre a pesquisa que fez para a exposição, a relação da sua família com o cineplaza e o papel da fotografia dentro do seu trabalho. Boa leitura!

Renata, queria começar esta entrevista perguntando como você percebe a relação da imagem na sua vida e por que ela é um código de expressão importante para você?

Ai, que difícil. Seria simples e fácil dizer que eu sempre tive algo de visual. Mas esse é o tipo de coisa que você só percebe com o tempo. A afinidade que sem tem com imagem. Enfim, nos demos bem e acho que essa relação minha com imagem vem da infância, da capacidade de imaginar. De histórias contadas, das fotografias de família, do contato com formas de expressão visual. É importante pra mim tanto na percepção de coisas simples do dia a dia: uma sombra que se projeta no chão, uma borboleta que passa, uma vitrine de loja; tanto quanto como a forma escolhida para o desenvolvimento dos meus trabalhos.

Isso do dia a dia fico pensando como cada um percebe – visualmente – as coisas de maneira diferente, de como isso do sensível define aquilo que vemos e o que não vemos. E acho que isso se espalha pelo meu trabalho. Por exemplo, atualmente tenho trabalhado com o Cine Plaza, que é um lugar que está muito mais na memória das pessoas do que na experiência de passar por ele e olhar para seus detalhes. Há uma invisibilidade dos lugares no espaço urbano.

Brevidade | Renata Voss

O Brevidade surgiu durante a sua pesquisa de mestrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) ou você já tinha intenção de realizar este trabalho?

A idéia da exposição de fato surgiu esse ano, no decorrer do mestrado. Brevidade é um recorte do que venho fazendo esse ano a partir de uma ação que fiz no Cine Plaza, em agosto, e uma instalação que fiz na exposição Quereres, realizada entre setembro e outubro desse ano em Salvador.

Poderia comentar um pouco sobre o processo de criação do projeto? Quais foram as suas referências, que materiais você utilizou e quais foram os conceitos-chave para o desenvolvimento deste trabalho?

Penso que a vontade de trabalhar com esse cinema surgiu justamente pelo distanciamento geográfico que atualmente tenho dele. Desde 2009 não moro em Maceió e acho que essa distância dilata a relação que estabelecemos com a cidade, com o lugar de onde viemos. Então, de início eu tinha a intenção de trabalhar com as memórias das pessoas que freqüentaram o lugar, abri uma caixa postal, um email, mas não tive tanto retorno. Conversei com um tio meu que trabalhou o tempo todo no cinema, para coletar informações, mas, apesar de tudo isso ser importante não estava – dentro de um processo criativo – me levando a algum lugar.

Então optei por trabalhar com aquilo que o cinema me provoca hoje. Fui no espaço fazer a primeira ação de, digamos, “reaproximação” do lugar. Obviamente que não nego a história do lugar, mas eu precisava me reaproximar dele. Tenho outros trabalhos que têm como motivação ou alguma relação com o cinema (como os cianótipos Cine Plaza, de 2007; ou a série Todo Mundo Pode Ser Uma Diva, de 2008), mas o que faço atualmente com o lugar tem outro tipo de abordagem. Em Cine Plaza eu fotografei o cinema como ele estava e revelei em cianótipo, então é um trabalho muito mais descritivo, documental, enfim, o cinema como estava naquele momento.

Nas ações que fiz esse ano, têm como um dos pontos principais levar imagens para esse espaço. Então os conceitos chave são: pensar no cinema como um lugar que exibe imagem, só que nesse caso, ele não exibe mais. Então levo a minha imagem para esse lugar, como numa troca: o cinema que não gera imagens (no sentido de exibir filme) ainda é capaz de me gerar imagens (no caso, o meu trabalho, através das imagens que levo pra lá). É como uma troca: eu dou a ele imagens, ele me devolve imagens. Depois das ações percebi que tem algo de aceitar a morte do lugar, afinal o cinema não funciona mais. Assim, o fio condutor do trabalho acaba sendo a própria fotografia – que é levada e trazida do cinema – e tem como lugar de ação o Cine Plaza.

Fiz uma ação em junho, que consistia em levar fotografias de álbum de família impressas em adesivo transparente, colar na parede e retirar trazendo resquícios de tinta e da parede do lugar. Mas há todo um caminho até chegar nesse adesivo: fotografei as fotos dos álbuns em filme preto e branco, revelei o negativo, arranhei, digitalizei e aí sim fiz os adesivos. Tem algo de agredir a imagem, assim como o tempo desmanchou o cinema. E o preto e branco numa tentativa de planificar os tempos que separam a data de uma fotografia da outra, facilmente percebido quando se assume a cor.

A segunda ação Instante Impreciso foi feita em agosto, e consistiu em soltar fotografias impressas em transparência amarradas em balões pretos com gás flybaloon (equivalente ao gás hélio) através da fachada do cinema. Então convidei as pessoas para assistirem a última sessão do cinema, que exibiria as suas últimas imagens. No caso, não era filme, mas sim fotografia. E em movimento, por conta do gás! Acaba que o balão é um elemento que tem força nesse trabalho, juntamente com o gás: pela sua imprevisibilidade, leveza, instabilidade etc.

A instalação feita em Quereres usava os mesmos elementos: as fotos impressas em transparência, fitilho, balão preto. Se na ação do cinema eu solto as imagens, na instalação elas ficam presas na galeria, no museu, que é lugar de memória. O mais bacana da instalação é que o gás perde a força, então as fotografias ficaram suspensas por mais ou menos umas 3 ou 4 horas, depois ficaram caídas pelo chão, como uma imagem que morre.

Pois bem, em Brevidade trabalho com o encontro de todas essas camadas de tempo: tanto das ações no cinema, como da própria carga histórica do local, trabalho com o que ele é, mas me baseando no que ele foi.

Brevidade - montagem em galeria traz outros bons desafios | Foto: Renata Voss

Qual é o lugar da fotografia neste projeto?

Ela é o fio condutor e se insere de algumas maneiras: no sentido que levo fotografias que são minhas ou não pra o espaço físico do cinema e me utilizo da fotografia para registrar essas imagens no lugar.

O Cine Plaza era do seu avô. Como essa memória de família contribuiu para o desenvolvimento do trabalho? A sua família participou, em algum momento, do desenvolvimento do projeto

O fato de ter sido do meu avô é o que me motiva a trabalhar com esse lugar, pelas memórias de infância, do cinema como história contada – de como foi a inauguração, como eram as coisas antigamente. Sempre ouvi histórias dele quando pequena, então é algo muito presente e fixo na minha imaginação. Acaba sendo um cinema imaginado e pouco presente no sentido de ter um dia a dia nesse lugar como tiveram mais intensamente outros parentes meus. Eu poderia falar de qualquer outro cinema de bairro desativado, mas não teria a intensidade que tenho com esse trabalho que tenho feito, talvez. A minha família participou, sim, no desenvolvimento do projeto. Como não estou morando em Maceió, minha mãe e meu pai me ajudaram muito articulando a minhas idas ao cinema, juntamente com alguns tios e primos, que foram fundamentais na produção do trabalho!

Em algum momento você sentiu que algumas coisas que gostaria de fazer não seriam possíveis por causa da relação de afeto que você tem com o lugar?

Não. Na verdade, tem sido um trabalho tranqüilo na medida do possível. Outro dia me perguntaram como fica isso da relação familiar com o lugar, dessa autorreferencialidade como elemento no processo criativo. Acho que tem algo estrutural do trabalho que é maior do que o cinema ser ou não do meu avô, que são questões como o espaço urbano, a morte de um espaço, conflitos etc.

Como foi o trabalho de parceria com o curador do projeto, que é seu orientador, na UFBA?

Tem sido ótima. Acho que ele era a pessoa mais apropriada pra esse trabalho, visto que ele vem acompanhando o meu processo desde o início do ano. Seria injusto com o próprio trabalho convidar outra pessoa e até difícil para se chegar à profundidade de diálogo que tenho tido com ele. Então houve conversa sobre a edição das imagens, a forma de distribuição delas no espaço, pensando na galeria do Sesc.

Como você compreende o papel do curador no desenvolvimento do trabalho? E o que leva desta experiência para os trabalhos em que você mesma realiza algum tipo de curadoria?

Acho que é uma figura que te dá um norte no meio do caos. Dentro de um projeto criativo acho que existem muitos caminhos possíveis e, às vezes, queremos seguir para todos os lados – pela própria euforia da criação, de querer fazer tudo ao mesmo tempo – mas… não dá, né? Tem que ser uma coisa de cada vez, tudo bem pensado. No caso de Brevidade eu tinha uma quantidade enorme de imagens para editar. Então editei a primeira parte sozinha, depois me reuni com Eriel e fomos decidindo juntos as possibilidades. E a partir de uma quantidade maior de imagens fui adequando ao espaço. Acho que a experiência me ajudou a pensar nisso da ocupação do espaço de uma galeria de uma maneira melhor e também como a edição é importante para a transformação e atribuição de sentido a um trabalho. Às vezes uma foto que você gosta não deve entrar somente porque você gosta ou porque é bonita, mas é preciso perceber o que acontece com as outras imagens quando essa foto entra.

O trabalho vai ser exposto na Galeria do Sesc, que é um espaço fechado. A idéia vai ser expor como um trabalho fotográfico tradicional ou você pensou em outras estratégias expográficas para o espaço?

É tradicional – exceto pelas obras em que uso os adesivos com restinhos de tinta de parede. Essas ocupam o espaço, ficam no meio da galeria. Tem uma montagem especial também em relação a algumas fotos, que “se encontram” na montagem, são 3 fotos que formam uma obra só, ou 2 fotos que formam uma obra. Isso é importante quando falo lá em cima do encontro dos tempos da ação no cinema e da instalação.

Existe a intenção de, em tempos futuros, mostrar esse trabalho na rua ou até mesmo nas ruínas do cinema? Alagoas vai ver o projeto em 2012 ou ainda não há planos de exibição lá?

No cinema é um pouco complicado de acontecer, mas pode ser que eu leve a exposição para Maceió, sim, no ano que vem! Confesso que ainda não pensei em como e onde isso poderia acontecer, mas acho que seria importante expor lá que é o lugar do cinema.

Serviço:

Exposição Brevidade – Renata Voss

Galeria de Arte Sesc Centro

Visitação: 18 de novembro a 27 de dezembro de 2011

Horário: 10h às 19h

Mais informações: Rua Dom José Thomaz, 235 – São José – Aracaju – SE –

Telefone: (79) 3216 2700 – Email: faleconosco@se.sesc.com.br



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