Tateando o Mercado

Quando o mercado acorda - Foto: Zak Moreira/Trotamundos Coletivo

É comum ler em entrevistas de fotógrafos que uma das coisas bacanas da área é poder estar em lugares que surpreendem. O melhor de tudo é quando este lugar é um que já fomos várias vezes. A experiência de fotografar o Mercado Municipal de Aracaju para encaminhar a pesquisa do novo projeto do coletivo – Mercado 24h – trouxe uma espécie de “elemento (in)esperado”, ao chegarmos quase cinco horas da manhã para ver os comerciantes organizando e recebendo as mercadorias.

Em meio à luz ainda dorminhoca da madrugada, o canto das galinhas fazia coro com caminhões chegando, abrir de portas, o ranger dos facões na pedra e as pessoas falando e andando apressadas, quase sem nem sentir mais o cheiro do sangue que vinha dos pedaços de boi, porco e aves que eram transportados de um lado para outro do galpão.

No meio desse tumulto comum ao mercado estávamos nós, olhando tão atentamente para todos os movimentos, que quase esquecíamos de levantar a câmera e pinçar alguns deles. Foi preciso voltar uma segunda vez, porque os olhos maravilhados por esse primeiro contato pareciam não querer o intermédio de uma máquina e muitas daquelas imagens ficaram apenas na memória afetiva. É muito bom quando isso acontece, quando temos a chance de fotografar apenas com os sentidos. Eles abrem os caminhos para que olhemos o outro antes da câmera – e isso faz diferença.

E envolvida em contar o nosso primeiro momento neste mercado que agora se revela, quase esqueço de falar do projeto, este que motivou a chegada ainda de madrugada. O Mercado Municipal de Aracaju está completando dez anos de revitalização. Durante este período, algumas coisas mudaram na relação deste espaço com a cidade: as feiras livres nos bairros se fortaleceram, ampliando a concorrência com alguns setores do mercado e este ganhou um status mais turístico, o que pode significar uma alteração do perfil de consumo dos visitantes e mexer com os negócios dos vendedores.

Os vendedores mais antigos acompanharam de perto estas transformações e adotaram estratégias para continuar negociando em um espaço que para eles é sinônimo de bem-estar e sobrevivência. Foi a partir da conversa com estes personagens que o projeto Mercado 24h foi tomou corpo para debater o que significa uma década neste novo mercado. Dez anos, dez personagens, dez pequenos enredos acompanhados em vários momentos do dia. Correria, sorrisos, preocupações, cantoria, uma reza para lá, um doce para cá, quer comprar flores, meu amor? E um beiju? O fumo de hoje está novo.

Entre uma venda e outra, Seu Narciso nos conta em sua loja de queijos que ele é como vinho, quanto mais velho, melhor. Seu Fumaça nos mostra uma foto do enterro de sua mãe, episódio que marcou a sua história, que agora foi escrita em livro e tem também uma versão “cordelizada” pelo amigo e poeta João Firmino, também personagem de nosso conto fotográfico, que já foi abençoado pela Galega das ervas e sua mãe, devota desde menina de Santo Antônio e Nossa Senhora da Conceição.

Elas defendem com unhas e dentes o bom atendimento como estratégia de sedução dos turistas, que passam, olham, perguntam, cheiram, riem, tiram fotos e vão embora, nem sempre deixando algum trocado. O mercado, para muitos deles, ainda é sustentado pelos moradores da cidade, que se deslocam para fazer as compras da semana, ou do interior, que vem para comprar mercadorias em quantidades maiores para revenda.

Tudo em um período que varia entre seis da manhã às cinco da tarde, dependendo do tipo de comércio. As carnes, queijos e frutas abrem muito cedo. O artesanato acompanha o passo dos visitantes, que só chegam após o café da manhã. Os bares se estendem pelo final do expediente afora, quando a música explora as alturas acompanhada do petisco, da cervejinha e de outras coisitas mais.

É neste ciclo que os segredos do mercado vão aparecendo, como a preferência de leitura das clientes de Seu Fumaça e Firmino, que merecem um capítulo à parte, a saída inesperada dos fotógrafos lambe-lambe e coisas que os olhos só vêem quando o mercado fecha, todo mundo vai embora e os seguranças perambulam pelos corredores silenciosos. Ui!

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Pé de Post

Durante os próximos meses, vamos colocando algumas fotos desse processo de pesquisa e desenvolvimento do projeto do mercado no flickr do Trotamundos Coletivo. A conversa está aberta. Bem vindos!!!

Esse post foi publicado em Aracaju, Autoria, Estética, Fotografia, Linguagem, Memórias, Produção, Reflexão. Bookmark o link permanente.

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