Indiferença?

Domingo de manhã, modificando as configurações do blog, e minha esposa me chama pra escutar esse texto que agora posto. É um fragmento da tese de doutorado de Ana Paula Figueiredo Lousada, intitulada: “Crônicas de um Trabalho Docente: A Invenção como um Imanente à Vida”. Ela cita Otto Lara Resende, em um texto publicado pela Folha de São Paulo em 1992.

Toda vez que pensamos num trabalho, tentamos exercitar a mudança do foco, o olhar diferente, ver o que não prestamos atenção cotidianamente. E achei que esse texto tem tudo a ver com a nossa proposta. Lá Vai:

“Se eu morrer, morre comigo certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê.

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem.

Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença .”

REZENDE, O. L; O monstro da indiferença, Folha de S. Paulo, São Paulo, 23/fev/1992.

Texto Zak Moreira

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